A história do Triatlo de São Martinho do Porto começou, de certa forma, com um telefonema.
No final de 2021, eu tinha acabado de desafiar cerca de uma dezena de amigos alcobacenses para fazermos juntos o IRONMAN 70.3 Cascais do ano seguinte. Depois de vários anos a competir por um clube da zona de Sintra, queria criar em Alcobaça um grupo de pessoas ligadas ao triatlo. Falei com a Direção do Clube de Natação de Alcobaça e foi assim que nasceu a Secção de Triatlo do CNAL.
Um dia, um desses amigos telefonou-me a perguntar se eu sabia por que razão estava uma viatura da Federação de Triatlo de Portugal estacionada em frente à Câmara Municipal de Alcobaça. Não fazia ideia.
Telefonei ao João Raimundo, que conhecia pessoalmente Sérgio Dias, então Presidente da Federação. Poucos minutos depois soubemos que Hugo Nalha, Vice-Presidente da Federação tinha estado reunido com João Santos, Vereador do Desporto, para avaliar a possibilidade de realizar uma prova de triatlo em São Martinho do Porto. A resposta tinha sido negativa, porque se entendia que um evento daquela natureza só faria sentido se existisse um clube de triatlo no concelho.
A ironia era evidente.
Havia tudo o que era necessário, exceto o conhecimento de que havia tudo.
Conhecia profissionalmente Hermínio Rodrigues, Presidente da Câmara Municipal de Alcobaça, e pedi-lhe uma reunião para lhe apresentar a recém-criada Secção de Triatlo do CNAL. A partir daí, tudo aconteceu rapidamente.
Quando se juntaram à mesma mesa a Câmara Municipal, a Federação de Triatlo de Portugal, a Junta de Freguesia de São Martinho do Porto e o CNAL, foi muito fácil perceber que havia uma enorme convergência de vontades.
E duas frases ditas numa das primeiras reuniões acabaram por definir aquilo que o evento viria a ser.
Hermínio Rodrigues lançou-nos o desafio:
“Façam um evento que orgulhe os alcobacenses.”
Sérgio Dias acrescentou:
“O CNAL que trate da festa, que a FTP trata da competição.”
Penso que o ADN do Triatlo de São Martinho do Porto nasceu ali.
Definimos cinco objetivos. Promover São Martinho do Porto. Promover o desporto e o triatlo no concelho e na região. Homenagear os triatletas olímpicos de Alcobaça. Criar uma prova de grande qualidade que marcasse positivamente atletas e público. E trazer para uma prova de distância sprint alguma da qualidade e do glamour que encontramos nas grandes provas internacionais de longa distância.
Hoje, olhando para as quatro edições, são sobretudo estes dois últimos objetivos que melhor representam aquilo que fizemos.
Eu tinha participado no IRONMAN Barcelona e no IRONMAN Cascais. Nestas provas, um atleta pode pagar perto de mil euros por uma inscrição e participam milhares de pessoas. Essa dimensão financeira permite oferecer experiências extraordinárias.
No Triatlo de São Martinho do Porto, uma inscrição rondava os 20 euros.
O nosso desafio era olhar para o que de melhor se faz no mundo, mas manter os pés bem assentes na realidade.
Isso obrigava-nos a ser criativos.
Talvez nenhum exemplo represente melhor essa forma de pensar do que o parque de transição no areal.
Na primeira edição, em 2022, utilizámos a Rua Eng. Francisco Cavaleiro. Tivemos 714 inscritos e percebemos imediatamente que aquele espaço não permitiria acompanhar o crescimento que os indicadores já faziam prever.
No dia 4 de dezembro de 2022, pelas 18 horas, eu, o Sérgio Dias, o Nuno Vieira, Presidente da Junta de Freguesia de São Martinho do Porto, e o João Raimundo estávamos no areal. Tínhamos escolhido aquela hora porque a maré era igual à que encontraríamos no dia e hora da prova de 2023 e precisávamos de analisar vários aspetos técnicos.
O problema do parque de transição voltou à conversa.
Entre brincadeiras e algum desespero surgiram soluções como “deitamos um prédio abaixo”, “chegamos o prédio para o lado” ou “alcatroamos a praia”.
Até que a brincadeira deixou de parecer completamente absurda.
Eu disse: alcatroar a praia não, evidentemente, mas talvez pudéssemos encontrar um material suficientemente rígido para permitir aos atletas correr sobre o areal.
Começámos a explorar a ideia. Encontrámos uma empresa local que produz placas de madeira para a construção civil e que tinha material com defeitos estéticos que podia ser adquirido a um preço compatível com os nossos recursos.
Nasceu assim o parque de transição no areal.
Aquilo que começou quase como uma piada transformou-se numa das imagens mais marcantes do evento e alterou completamente a organização da prova, reduziu o impacto no trânsito da vila e criou uma zona de competição extraordinária para atletas e público. E talvez o melhor parque de transição do mundo!
Logo na primeira edição percebemos que o Triatlo de São Martinho do Porto não seria uma prova igual às outras. Praticamente tudo o que procurávamos fazer tinha como ponto de partida uma pergunta muito simples:
Como podemos tornar isto melhor para quem participa e para quem assiste?
Foi assim com as bancadas. Com as refeições oferecidas aos atletas e acompanhantes. Com o merchandising. Com os ecrãs gigantes. Com o sistema de som. Com as cerimónias de abertura. Com a comunicação. Com os prémios de finisher. Com a presença da música e da cultura alcobacense. Com a experiência dos jovens. Com o envolvimento das famílias.

E foi também assim com a transmissão em direto da edição de 2025.
Tanto quanto sabemos, uma transmissão desta dimensão era inédita numa prova nacional de triatlo. Mas quisemos acrescentar-lhe algo especial. Os três comentadores foram três triatletas olímpicos portugueses: Melanie Santos, João Silva e João Pereira.
Há aqui um simbolismo de que gosto particularmente. Um dos objetivos da primeira edição tinha sido homenagear os atletas olímpicos do nosso concelho. Quatro anos depois, Melanie Santos e João Silva estavam a comentar em direto a maior edição de sempre da prova que tinha começado, também, para os homenagear.
Mas nenhuma destas ideias teria tido o mesmo valor sem a comunidade.
O Triatlo de São Martinho do Porto nunca foi o trabalho de uma pessoa, nem sequer de um pequeno grupo. Foi construído por muitas dezenas de pessoas e instituições.
Escolas, escuteiros, associações, bombeiros, forças de segurança, empresas, músicos, técnicos, voluntários e muitos outros que fizeram parte da organização. Ao longo das quatro edições tivemos mais de uma centena de voluntários e quase duas dezenas de entidades locais envolvidas.
E havia algo muito visível na cara de quem participava na organização. Orgulho.
A partir de 2024 decidimos também remunerar as entidades que asseguravam voluntariado. Não o fizemos apenas como solução operacional. Existia uma intenção clara de devolver valor à comunidade que ajudava a criar esse mesmo valor e de reforçar o sentimento de pertença ao evento.
Esse envolvimento acabou por ser uma das maiores conquistas do projeto.
O impacto também chegou à modalidade. Quando começámos, Alcobaça tinha excelentes triatletas, incluindo atletas olímpicos, mas não existia uma estrutura local dedicada ao triatlo. O TSMP ajudou a aumentar o número de praticantes adultos e esteve diretamente na origem da criação da Escola de Triatlo do CNAL, que passou a desenvolver atividade durante todo o ano.
Em 2023 quisemos perceber se aquilo que sentíamos tinha correspondência objetiva. Desafiámos o Instituto Politécnico de Leiria a realizar uma avaliação académica independente dos impactos económico, social e desportivo do evento.
Os resultados confirmaram aquilo que víamos no terreno. Elevados níveis de satisfação dos atletas, uma forte ligação da população ao evento e um impacto económico no concelho estimado em cerca de um milhão de euros.
O evento continuou a crescer.
Em 2025 atingimos 1.768 inscrições, das quais 503 na Prova Aberta, números sem precedentes numa prova nacional de triatlo. Tivemos atletas provenientes de 15 dos 18 distritos de Portugal e oriundos de seis nacionalidades.
Mas os números, por si só, não explicam aquilo que aconteceu naquele fim de semana.
Talvez quem melhor o tenha sintetizado tenha sido alguém que chegou a São Martinho do Porto vindo de fora.
Na edição de 2025 esteve connosco Alan Ryan, Vice-Presidente da Europe Triathlon, com uma enorme experiência em provas internacionais, de Jogos Olímpicos a Taças de Mundo, passando por Campeonatos do Mundo e da Europa.
Quando Melanie Santos lhe perguntou se São Martinho do Porto tinha condições para receber uma prova internacional, a resposta foi inequívoca. Disse que o local era um dos melhores que alguma vez tinha visto, que a prova estava a um nível profissional e, depois de recordar a sua experiência nos maiores eventos mundiais da modalidade, resumiu a sua avaliação numa expressão simples:
“This is right up there.”
Estávamos ao nível dessas provas.
Pouco tempo depois, a candidatura de São Martinho do Porto para receber uma Taça da Europa de Triatlo foi aprovada.

Nunca encarámos esse reconhecimento como o objetivo final. Foi, sobretudo, a consequência natural de um percurso de quatro anos e da qualidade que muitas pessoas ajudaram a construir.
Talvez seja também por isso que gosto particularmente do filme produzido sobre a edição de 2025, “The Bay of Dreams”. Não é apenas um filme sobre uma competição. É um filme sobre atletas, território, emoção, público e pessoas. E é significativo que tenha começado a receber distinções em festivais de vários países. De alguma forma, São Martinho do Porto continuou a viajar mesmo depois de terminada a prova.
Quando olho para as quatro edições, o sentimento dominante é uma mistura de orgulho e gratidão.
Orgulho pelo nível que conseguimos alcançar, muito para além daquilo que imaginávamos quando começámos.
Gratidão a todas as pessoas que acreditaram no projeto, que trabalharam, que arriscaram, que resolveram problemas e que deram um pouco de si para que tudo acontecesse.
Hermínio Rodrigues e Sérgio Dias ajudaram a definir o rumo inicial, mas o sucesso do Triatlo de São Martinho do Porto pertence a um conjunto muito alargado de pessoas.
Nenhuma organização desta dimensão se constrói individualmente.
Se tivesse de deixar apenas uma ideia sobre estas quatro edições, seria esta:
Acredito convictamente que o Triatlo de São Martinho do Porto mudou a forma de organizar triatlo de curta distância em Portugal.
E talvez isso tenha acontecido porque nunca olhámos para o evento apenas como uma competição.
Um evento desportivo deve ser uma grande festa para os atletas e para os espectadores.
The Bay of Dreams. Triatlo de São Martinho do Porto 2025: Ver o filme no YouTube

Ricardo Santos
Responsável pela organização do Triatlo de São Martinho do Porto, 2022-2025