Para além de Peniche: como começou o Triatlo em Portugal

Para além de Peniche: como começou o Triatlo em Portugal

Paulo Cavaleiro 15 ago. 2026

Chamam-me, por vezes, o "pai do Triatlo português".

Nunca soube muito bem o que fazer com o título. Primeiro, porque um desporto não nasce de uma pessoa só. Depois, porque, olhando para trás, aquilo que fizemos há mais de 40 anos parece-me ter tido muito menos de paternidade do que de curiosidade, entusiasmo, alguma inconsciência própria dos vinte e poucos anos e uma enorme vontade de pôr coisas a acontecer.

Mas há uma história para contar. E talvez valha a pena contá-la agora, sobretudo porque a passagem do tempo foi simplificando a origem do Triatlo em Portugal até quase a resumir a uma data e a um lugar: Peniche, 15 de agosto de 1984.

Foi aí que se realizou a primeira prova. Mas a história não começou aí.

Uns "malucos" no Havai

No início dos anos 80, o panorama desportivo era bastante diferente do atual. Não havia ainda esta multiplicação de ultramaratonas, trails, raids, provas de aventura, Ironman e desafios cada vez mais improváveis. O desporto estava muito compartimentado: quem nadava, nadava; quem corria, corria; quem andava de bicicleta, pedalava.

E eis que começaram a chegar notícias de uns sujeitos que faziam as três coisas seguidas.

A aventura iniciada por um grupo de norte-americanos no Havai, em 1978, começava a despertar a atenção da comunicação social. Na Europa surgiam também, a partir de 1981, algumas experiências semelhantes e, em 1982, tomei conhecimento do Triatlo de Nice.

Fiquei imediatamente fascinado.

Não tanto pela dimensão "extrema" da coisa — expressão que, aliás, ainda não tinha adquirido o significado comercial que hoje possui —, mas pelo ecletismo. Havia naquela combinação de natação, ciclismo e corrida um equilíbrio que me atraía. Em vez da especialização absoluta num único gesto, o desafio era adaptar o corpo a três formas diferentes de esforço.

Comecei então a procurar tudo o que conseguia encontrar sobre aquele novo desporto e a estabelecer contactos com associações e organizadores europeus e norte-americanos.

Convém recordar que estamos a falar de 1982 e 1983. Não havia Google, email, redes sociais ou sequer Internet disponível para nos facilitar a vida. "Pesquisar" significava revistas, jornais, cartas, telefonemas, contactos pessoais e muita persistência.

"Será que alguma estância de Verão…?"

Há uma coincidência deliciosa nesta história.

No número 27 da revista Spiridon, de março-abril de 1983, o professor Mário Machado escrevia sobre aquela estranha modalidade em que alguém se propunha nadar 3.800 metros, pedalar 224 quilómetros e, como se ainda não chegasse, correr uma maratona.

Depois de falar do "Triatlo de Ferro" do Havai e de uma prova de distâncias menores em Long Beach, terminava com uma pergunta quase profética:

"Será que alguma estância de Verão aparecerá, dentro em pouco, com a modalidade em Portugal?"

Não foi propriamente uma estância de verão. Mas não andou longe.

Nesse mesmo ano aproveitei uma viagem a Nova Iorque para visitar o New York Road Runners Club, levando referências do Mário Machado. Queria perceber melhor o que se estava a passar com o Triatlo nos Estados Unidos e como começava a organizar-se internacionalmente.

A Triathlon USA tinha sido criada em 1982 e estava precisamente a lançar, em 1983, o seu primeiro campeonato de curta distância.

Regressei ainda mais convencido de que tínhamos de fazer aquilo em Portugal.

E pedi ajuda ao Mário.

Ele conhecia organizadores de provas por todo o país, sobretudo municípios, e pedi-lhe que estivesse atento a alguém suficientemente disponível — ou suficientemente aventureiro — para aceitar organizar um primeiro Triatlo.

E então apareceu Peniche

Foi assim que Peniche entrou na história.

Mário Machado soube que a Câmara Municipal, através do responsável pelo sector do Desporto, Nuno Belo, estava a preparar para as festas da cidade de agosto de 1984 uma competição destinada essencialmente aos pescadores locais.

A ideia era curiosa: combinar remo em barcos de pescadores, ciclismo e corrida a pé.

Não era Triatlo, portanto. E Nuno Belo não tinha conhecimento do movimento internacional que estava então a desenvolver-se em torno da modalidade.

Mas estava lá quase tudo o que era necessário: a ideia de combinar diferentes formas de esforço, um organizador disponível e, sobretudo, vontade de fazer qualquer coisa nova.

Mário Machado pôs-nos em contacto.

Na primeira reunião expliquei ao Nuno o que era o Triatlo, mostrei-lhe o que estava a acontecer noutros países e disse-lhe que a introdução da modalidade em Portugal estava iminente: eu procurava ativamente um lugar para realizar a primeira prova e já existiam pessoas interessadas.

Ele percebeu imediatamente a oportunidade.

Em meados de junho de 1984, a escassos dois meses da data prevista, Peniche deu luz verde.

O remo saiu, entrou a natação e começou uma pequena corrida contra o tempo para organizar o primeiro Triatlo português.

Nuno Belo fez o trabalho essencial no terreno. Eu passei-lhe toda a informação que tinha acumulado sobre a modalidade e dei o apoio possível à organização.

No dia 15 de agosto de 1984, trinta pioneiros alinharam na Ribeira, em Peniche, para 400 metros de natação, cerca de 17 quilómetros de bicicleta e 8 quilómetros de corrida.

Chegaram 28 ao fim.

Ganhou Paulo Carvalho, atleta do Queluz, que nessa altura ainda não era triatleta — pela simples razão de que praticamente ninguém em Portugal o podia ser.

Tínhamos finalmente um Triatlo.

Por isso, quando se diz que o Triatlo português "nasceu em Peniche", a frase é verdadeira se estivermos a falar da primeira prova. Mas não será inteiramente correta se com isso quisermos dizer que tudo começou ali, espontaneamente.

Peniche foi a concretização de um processo que já vinha de 1982-83.

E, ironicamente, enquanto fazíamos nascer o Triatlo português, a Europa também se organizava: apenas dois dias depois de Peniche, em 17 de agosto de 1984, representantes de dez países reuniam-se em Avignon para constituir a European Triathlon Union.

Não estivemos lá.

Tínhamos uma boa desculpa.

De Peniche para Cascais — e para o Rio

A partir daí as coisas aceleraram.

Ainda em 1984, o diretor do Diário de Notícias teve conhecimento da experiência de Peniche e contactou-me. A marca francesa Le Coq Sportif pretendia apoiar o Triatlo em Portugal e integrá-lo num circuito internacional, e o grupo editorial queria associar-se à organização de uma grande prova já no ano seguinte.

Começou assim a minha colaboração com o Diário de Notícias.

O resultado foi o 1º Triatlo Internacional de Cascais, em 29 de junho de 1985, ao qual se seguiram várias edições.

E de repente aquilo que pouco tempo antes parecia uma extravagância de uns quantos "malucos" começava a ganhar dimensão.

Em agosto de 1985 estava já a inscrever Paulo Carvalho, José Mariz e Carlos Carmino no Triatlo Internacional do Rio de Janeiro, a realizar em setembro. Formavam aquilo a que poderemos chamar, com alguma liberdade histórica, a nossa primeira seleção nacional oficiosa. A participação fazia parte do prémio pelos resultados obtidos em Cascais.

Ainda não tínhamos federação.

Mas já tínhamos "seleção".

Uma revista para um desporto que ainda estava a nascer

Em março de 1986 meti-me noutra aventura: publicar uma revista exclusivamente dedicada à modalidade.

Chamava-se simplesmente TRIATLO – Desporto para viver.

Foi um esforço pessoal considerável, tornado possível pelo apoio de várias pessoas, entre as quais o designer Alfredo de Sousa, e pelo suporte do Diário de Notícias na produção.

No editorial do primeiro número escrevemos que o Triatlo nos atraía pela conjugação de "PRAZER e VONTADE" e pela constante "DESCOBERTA e CONQUISTA" de nós próprios, de novos espaços e de capacidades insuspeitadas.

Mais de quatro décadas depois, continuo a achar que era uma descrição bastante razoável.

A revista pretendia informar, naturalmente, mas sobretudo incentivar a ação, a iniciativa e a participação.

Precisávamos agora de transformar aquele movimento de provas, atletas e entusiastas numa organização.

Os "carolas" do Estrela do Mar

Cartão Número 1 da APT

A revista acabou por funcionar também como montra e ponto de encontro do pequeno mundo do Triatlo português.

Comecei a incentivar a criação de uma associação nacional e convenci Carlos Raimundo, então dirigente superior da Câmara Municipal de Oeiras, a assumir a presidência.

A Associação Portuguesa de Triatlo (APT) foi constituída por escritura em 26 de maio de 1987.

Coube-me o número de associado número 1, que guardo sobretudo como recordação daquela aventura coletiva.

Porque a imagem mais fiel dos primórdios do Triatlo português talvez não seja uma grande sala de reuniões ou um gabinete federativo.

É um armazém.

Mais precisamente, o armazém do café-restaurante Estrela do Mar, em Carcavelos, propriedade de João Neves Almeida, um dos grandes benfeitores da modalidade nesses primeiros tempos.

Era ali que se juntava aquele grupo de "carolas".

Sem grandes meios. Sem estruturas profissionais. Provavelmente com reuniões menos formais do que recomendaria qualquer manual de gestão desportiva.

Mas com uma vontade enorme de fazer crescer o Triatlo.

Com as poupanças até à Finlândia

Congresso da European Triathlon de 1987

Entretanto eu continuava a corresponder-me com os dirigentes europeus que contactava desde 1983.

Em 1987 decidi dar mais um passo.

Juntei as minhas poupanças e fui até Joroinen, na Finlândia, onde, paralelamente ao Campeonato Europeu de Longa Distância, se realizaria um congresso da jovem European Triathlon Union.

Levava uma ambição na bagagem: apresentar a candidatura portuguesa à organização, em Cascais, do Campeonato Europeu de Triatlo de Curta Distância de 1989.

Foi também aí que encontrei pessoalmente, pela primeira vez, homens como Didier Lehénaff, Joop van Zanten, Con O'Callaghan e Václav Vítovec, entre outros dirigentes europeus com quem há anos trocava correspondência.

É curioso pensar nisso hoje.

Portugal tinha realizado o seu primeiro Triatlo apenas três anos antes e nós já estávamos numa reunião europeia a propor organizar um Campeonato da Europa.

Talvez fosse ousadia.

Talvez inconsciência.

Naquela idade, felizmente, as duas coisas confundem-se com alguma facilidade.

Finalmente, uma Federação

Cartão Número 1 da FTP

A Federação de Triatlo de Portugal constituiu-se em 16 de outubro de 1989.

Nesse mesmo ano havia já um calendário com 22 provas de Triatlo, incluindo uma de média distância, que reuniu cerca de 40 participantes.

Em cinco anos tínhamos passado de 30 pioneiros numa praia de Peniche para uma modalidade com calendário nacional, associação, federação e relações internacionais estabelecidas.

E Cascais recebeu finalmente o Campeonato Europeu cuja candidatura eu levara à Finlândia.

A sua concretização deve muito ao empenho de Jorge Damas, que viria infelizmente a falecer demasiado cedo e cuja intervenção merece ser recordada.

Com a criação da Federação considerei, nessa altura, que a minha missão estava cumprida.

Tinha outras exigências profissionais e pareceu-me que chegara o momento de ficar apenas disponível para ajudar quando fosse necessário.

A modalidade já conseguia caminhar pelas próprias pernas.

Ou nadar, pedalar e correr por elas.

Não correu tudo tão tranquilamente quanto eu esperava. A primeira presidência da Federação mergulhou-a numa grave instabilidade e acabou por haver eleições antecipadas. Em setembro de 1991 fui empurrado — não encontro palavra muito melhor — para assumir a presidência.

Foi uma função que deixei logo que as circunstâncias o permitiram.

Mais tarde, em 1995, Adriano Cunha assumiria a presidência e faria o importante trabalho de reformulação e consolidação da estrutura federativa.

A partir daí começa outra história — muito mais conhecida e que já não precisa de mim para ser contada.

Em 1994, o Triatlo foi admitido no programa dos Jogos Olímpicos. Em Sydney, no ano 2000, os primeiros triatletas olímpicos mergulharam finalmente na água.

Para quem, menos de vinte anos antes, andara a enviar cartas para vários cantos do mundo tentando perceber como funcionava aquele estranho desporto, confesso que foi bonito assistir.

Afinal, quem foi o "pai"?

Em 8 de março de 1997, a Assembleia Geral da Federação atribuiu-me o Diploma de Associado Honorário.

É uma distinção que naturalmente me honra.

Quanto à outra, a de "pai do Triatlo português", continuo a recebê-la com alguma reserva e um sorriso.

Se alguma coisa fiz de importante, talvez tenha sido simplesmente ver cedo uma ideia em que valia a pena acreditar e conseguir juntar pessoas à sua volta.

Sem Mário Machado talvez não tivesse aparecido Peniche naquele momento.

Sem Nuno Belo não teria havido aquele 15 de agosto de 1984.

Sem os responsáveis do Diário de Notícias, Cascais dificilmente teria adquirido a dimensão que adquiriu.

Sem Alfredo de Sousa e todos os que colaboraram e patrocinaram a revista Triatlo, não teríamos tido aquela extraordinária ferramenta de divulgação e agregação.

Sem Carlos Raimundo, João Neves Almeida, Nelson Laranjeira, Luis Ascenso e os restantes "carolas" da APT, não se teria criado a primeira estrutura organizada.

Sem Jorge Damas, Adriano Cunha, Artur Parreira e tantos outros que não consigo aqui enumerar, vários passos seguintes não teriam sido possíveis.

Enfim, sem a Dora Pinto, minha companheira desde antes desses primeiros tempos e minha esposa desde que se sagrou a primeira campeã nacional de Triatlo, provavelmente muito disto também não teria sido possível. Ela não se limitou a aceitar esta aventura: fez dela também a sua e acompanhou com disponibilidade, esforço – e algum pânico, por vezes – praticamente todas as iniciativas em que fui comprometendo os nossos recursos ao longo daqueles anos.

E, acima de tudo, sem aqueles primeiros atletas, e respectivas famílias, que aceitaram mergulhar, pegar numa bicicleta e depois sair a correr — quando quase ninguém sabia muito bem por que raio alguém quereria fazer três desportos seguidos — não haveria modalidade nenhuma para organizar.

Talvez seja essa a parte da história de que mais gosto.

Começámos sem saber exatamente onde aquilo nos levaria.

Não havia carreiras a construir, lugares a conquistar ou estruturas onde instalar alguém. Na verdade, a estrutura ainda nem existia.

Havia apenas uma ideia nova, um grupo de pessoas disponíveis e o prazer quase infantil de construir qualquer coisa que achávamos que valia a pena.

No editorial da revista TRIATLO, em março de 1986, escrevi que aquele desporto propunha "um novo enquadramento do indivíduo na sua prática física".

Quase quinze anos depois, num artigo publicado quando o Triatlo se preparava para chegar aos Jogos Olímpicos de Sydney, resumi a questão de maneira bastante menos solene, da mesma forma que o jornalista João Alves da Costa do jornal A Bola já tinha esclarecido a propósito do Triatlo de Cascais de 1986:

"Basta provar para gostar!"

Pensando bem, talvez não tenha encontrado entretanto definição melhor.

E foi mais ou menos assim que tudo começou.