Se me perguntarem qual foi sempre o meu maior sonho, a resposta é simples e imediata: a natação de competição.
Tudo começou em 1972. Eu tinha 11 anos, vivia em Luanda e fiquei absolutamente hipnotizado ao ver o lendário Mark Spitz nadar mariposa nos Jogos Olímpicos de Munique. Olhei para aquilo fascinado, a pensar: "Quem me dera nadar assim". A minha grande referência estava ali e, desde essa altura, a natação de competição — em particular a técnica de mariposa — tornou-se a minha grande paixão.
Mas a vida real não me permitiu desenvolver esse sonho como desejava. Em finais de 1974, quando regressei a Azeitão, encontrei um país empobrecido, sem piscinas aquecidas na minha área de residência (Azeitão) e de estudos (Setúbal). Sem piscina de inverno, era impossível treinar natação a sério entre outubro e abril. Para manter a forma física durante os meses mais frios, se não dava para nadar, corria; e, quando me fartava de correr, pedalava até à Figueirinha, onde matava saudades da água nadando no mar até "gelar" (10 a 15 minutos).
Sem eu saber, a vida estava a desenhar-me um caminho alternativo.
Representei a natação da SFUAP de 1976 a 1979. Em 1979 fui para o Instituto Superior Técnico (IST) estudar e passei a treinar natação todo o ano na piscina do IST, em representação do Sporting. Em 1981, tive de me concentrar em terminar o curso e acabei por abandonar a natação de competição para me dedicar por completo aos estudos. Mas a paixão pelo desporto continuava lá: eu já fazia as viagens entre casa (em Azeitão) e o IST (em Lisboa) de bicicleta; além disso, corria quase diariamente em Azeitão e, de vez em quando, matava saudades dando umas braçadas na piscina do IST e outras no mar da Figueirinha.
E foi precisamente aí, em 1984, na piscina do IST, que encontrei o Paulo Cavaleiro, que me desafiou:
"Tu ias gostar mesmo era de fazer um Triatlo! Sabes que vai ser realizado o primeiro em Portugal, em Peniche, este verão?"
Olhei para ele sem perceber bem a palavra:
"Ti quê? Parece que disseste Teatro?"
"TRI-A-TLO. Nadar, pedalar e correr. Tu estás claramente bem ambientado a todas as três modalidades. Era uma boa experiência para ti."
Foi aí que percebi que, por mais que o meu sonho original fosse a natação pura, os últimos anos tinham-me encaminhado naturalmente para a nova modalidade.
Aceitei o desafio e, no dia 15 de agosto de 1984, lá estava eu com os meus óculos de natação, uma "pasteleira" pesada e velha e uns ténis básicos para experimentar o primeiro triatlo de Portugal, em Peniche.
O resultado foi uma aventura simultaneamente excitante, sofrida e divertida. Saí gelado das águas de Peniche, atirei-me para a bicicleta, sofri nas subidas da costa a arrastar aquela "pasteleira" e rebentei de vez a correr pelas mesmas encostas e pelas ruas da cidade.
Cortei a meta de rastos, mas muito entusiasmado e feliz com o resultado. O meu sonho de miúdo em torno da mariposa e de Mark Spitz nunca desapareceu, mas ganhei uma nova motivação para competir num desporto tão desafiante. A minha natação ganhou duas rodas e um par de ténis e, assim, continuei a divertir-me a competir por mais uns anos.